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Uma professora de 47 anos, moradora de Salvador, começou a sentir uma fisgada constante no joelho direito ao subir as escadas do colégio onde dá aula há mais de duas décadas. Atribuiu o desconforto ao cansaço da rotina, à idade, ao peso ganho durante a pandemia. Levou quase dois anos até procurar uma avaliação médica.
Quando finalmente fez a ressonância, o exame mostrou desgaste da cartilagem em estágio moderado, processo que costuma aparecer em pacientes uma década mais velhos. A história, contada em consultórios de ortopedia da Bahia e de outros estados, tem um detalhe que se repete: o uso diário de salto alto ao longo de mais de vinte anos de trabalho em sala de aula.
A artrose, doença degenerativa que provoca o desgaste progressivo da cartilagem que reveste as articulações, deixou de ser um problema exclusivo da terceira idade. Mulheres entre 40 e 55 anos, ativas profissionalmente, vêm chegando aos consultórios com queixas que antes eram típicas de pacientes na faixa dos 65 anos.
O dado mais recente do Hospital Ortopédico do Estado da Bahia mostra a dimensão do problema: mais de 50% dos atendimentos realizados na unidade já chegaram com diagnóstico de artrose, e a proporção entre mulheres é consistentemente maior.
A ligação entre o uso de salto alto e o desgaste articular precoce tem sido investigada há décadas, e os resultados convergem para uma conclusão incômoda para quem usa o calçado diariamente: o impacto na biomecânica do joelho é direto, mensurável e cumulativo.
Como o salto alto modifica a carga sobre o joelho
O corpo humano funciona em torno de um eixo central que distribui o peso de forma equilibrada entre os pés. Quando uma pessoa coloca um sapato com salto, esse eixo se desloca para frente, e a forma como o peso é transferido para as articulações muda. Quanto mais alto o salto, maior o deslocamento e maior a sobrecarga sobre regiões específicas da articulação.
Pesquisas conduzidas em laboratórios de biomecânica mostram que sapatos de salto alto aumentam a sobrecarga entre a patela e o fêmur, e também no compartimento medial do joelho, que é a parte interna da articulação.
"Esse é justamente o local onde a artrose costuma aparecer primeiro em mulheres. A cartilagem da região começa a ser comprimida de forma desigual a cada passo, e ao longo dos anos esse desgaste se acumula sem que a pessoa perceba nada além de um eventual cansaço nas pernas no fim do dia", comenta Dr. Ulbiramar Correia, médico de joelho que atende em Goiânia.
A reumatologia também ajuda a entender por que o problema é mais comum entre mulheres. O número de mulheres com artrose chega a ser o dobro do número de homens, e parte dessa diferença é explicada por fatores hormonais, anatômicos e pela menor massa muscular em torno do joelho. Mas o uso prolongado de calçados que alteram o eixo corporal entra como um agravante mecânico que age junto desses fatores biológicos.
Levantamentos internacionais sugerem que cerca de 40% das mulheres que usam salto alto regularmente relatam algum tipo de desconforto nos joelhos. O dado pode parecer baixo até considerar o seguinte: a dor é um sinal tardio. O desgaste da cartilagem começa muito antes de a articulação dar o primeiro aviso.
Quando a dor já é o estágio avançado de um processo silencioso
A cartilagem articular não tem terminações nervosas. Isso significa que ela pode ir se desgastando por anos sem provocar qualquer sintoma. Quando a dor aparece, normalmente já houve perda significativa de espessura, e em muitos casos o osso subcondral, que fica logo abaixo da cartilagem, começou a ser afetado.
Esse padrão de evolução silenciosa explica por que tantas pacientes chegam ao consultório já em fase moderada ou avançada da doença. A queixa começa como uma dor leve no fim do dia, evolui para desconforto ao subir escadas, depois para rigidez ao acordar, e finalmente para limitação funcional. O problema é que, nesse ponto, opções menos invasivas de tratamento podem já não ser suficientes.
A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 60% das pessoas acima dos 50 anos já apresentam algum grau de degeneração das cartilagens, e que essa proporção sobe para perto de 80% entre os indivíduos com 70 a 75 anos.
No Brasil, o Ministério da Saúde estima que entre 15 e 30 milhões de pessoas convivem com a artrose, número que tende a crescer com o envelhecimento populacional.
O Censo de 2022 do IBGE registrou 22,1 milhões de brasileiros acima de 65 anos, em crescimento expressivo sobre o levantamento anterior, e as projeções indicam que esse contingente deve ultrapassar 58 milhões até 2060.
Diante desse cenário, a recomendação dos consultórios é simples: dor recorrente no joelho, mesmo que leve, mesmo que apareça apenas em determinados momentos do dia, merece avaliação.
Vale a pena procurar um ortopedista especialista em joelho na sua região, verificando formação, volume cirúrgico e experiência específica com tratamento articular antes de marcar a consulta.
A diferença entre um profissional generalista e um especialista em joelho pode definir a precisão do diagnóstico em fase inicial, quando o tratamento conservador ainda tem alta efetividade.
O perfil que mais aparece nos consultórios
A paciente típica que chega com artrose precoce tem entre 45 e 60 anos, trabalha em pé ou caminha bastante durante o dia, e usou salto alto de forma rotineira por décadas.
Em muitos casos, a profissão exige o calçado: vendedoras de loja, professoras, recepcionistas, profissionais liberais que atendem clientes, executivas que circulam em escritórios formais.
A pressão estética, a regra de vestimenta corporativa e o hábito construído ao longo da juventude fazem com que o sapato seja usado por oito a dez horas seguidas, vários dias por semana.
Quanto maior a altura do salto, maior a sobrecarga acumulada. Saltos acima de sete centímetros são apontados em diferentes estudos como o limite a partir do qual o risco de artrose precoce aumenta de forma significativa.
Não significa que toda mulher que usa salto alto desenvolverá artrose, mas significa que a probabilidade cresce, especialmente quando se somam outros fatores: sobrepeso, sedentarismo, lesões antigas no joelho, predisposição genética.
O sobrepeso entra como elemento amplificador. Cada quilo extra no corpo representa cerca de quatro quilos adicionais de carga sobre o joelho a cada passo. Em uma pessoa com cinco quilos acima do peso ideal, a articulação suporta vinte quilos extras a cada passada.
Em uma caminhada de mil passos, isso significa uma carga adicional acumulada da ordem de toneladas. Quando essa pressão é distribuída por um calçado que já desloca o eixo natural do corpo, o efeito sobre a cartilagem é potencializado.
A obesidade já atinge mais de 20% da população adulta brasileira e cresce em todas as faixas etárias. A combinação entre o aumento do peso médio da população, o envelhecimento e o uso continuado de calçados inadequados é um dos motivos pelos quais a artrose, antes considerada um problema da velhice, vem aparecendo em faixas etárias mais jovens.
O que muda quando o diagnóstico chega na hora certa
A artrose não tem cura, mas tem manejo. A diferença entre um paciente que mantém autonomia até os 80 anos e outro que perde mobilidade aos 65 muitas vezes está na velocidade com que a doença foi identificada e na qualidade do acompanhamento ao longo do tempo.
Em fases iniciais, o tratamento é predominantemente conservador. Inclui fortalecimento muscular orientado por fisioterapia, controle do peso, ajuste do tipo de calçado usado no dia a dia, atividade física de baixo impacto, e em alguns casos infiltrações articulares para reduzir inflamação. Pacientes que aderem a esse protocolo conseguem retardar a evolução da doença por anos, em alguns casos por décadas.
Quando o desgaste é moderado, o leque de opções ainda é amplo. Técnicas como a subcondroplastia, estudada pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia da USP, têm mostrado bons resultados na preservação da articulação.
A osteotomia, procedimento que realinha o eixo do joelho e redistribui a carga, é outra alternativa que pode adiar por muitos anos a necessidade de soluções mais invasivas.
Em casos avançados, quando a cartilagem está praticamente ausente e a dor compromete tarefas básicas do cotidiano, a cirurgia de prótese de joelho passa a ser uma alternativa concreta. Os registros internacionais mostram que próteses de joelho atuais apresentam durabilidade elevada, com cerca de 90% dos implantes funcionando bem após 20 anos.
No Brasil, os dados do DATASUS apontam que as artroplastias totais de joelho realizadas pelo SUS cresceram de forma significativa nos últimos anos.
Um estudo publicado em 2024 com base nos registros do SIH/SUS mostrou que o volume desses procedimentos caiu cerca de 32% durante a pandemia e se recuperou em seguida com aumento de aproximadamente 52% no período pós-pandêmico, superando o patamar anterior em torno de 23%.
A escolha que se acumula ao longo dos anos
A discussão sobre o salto alto raramente se resume a sim ou não. Para muitas mulheres, o calçado faz parte da identidade profissional, da expressão estética e da rotina social.
O problema não está no uso ocasional, em eventos ou em jornadas curtas, mas no uso continuado, em altura excessiva, somado a outros fatores de risco que vão se acumulando silenciosamente.
A literatura médica indica que saltos baixos, abaixo de quatro centímetros, distribuem o peso de forma mais próxima do eixo natural do corpo e oferecem risco bem menor para as articulações.
Calçados com solado emborrachado, com algum sistema de amortecimento, ou tênis estruturados são apontados como as melhores opções para uso diário, especialmente em quem caminha bastante durante o expediente.
Há também recomendações específicas para quem já tem desgaste articular detectado em exame: os piores calçados para quem tem artrose no joelho são os sapatos de salto alto, tamancos e sapatos com solado rígido, conforme orientações reunidas em publicações especializadas que mostram como saltos altos podem prejudicar a saúde dos joelhos com efeito proporcional à altura e à frequência de uso.
A transição não precisa ser radical. Especialistas em pé e tornozelo recomendam alternância entre tipos de calçado ao longo da semana, redução gradual da altura média dos saltos usados e fortalecimento muscular específico para os grupos que estabilizam o joelho, em especial o quadríceps e os músculos da parte posterior da coxa.
Em pacientes que já apresentam algum desconforto, a recomendação costuma ser mais firme: avaliação ortopédica antes que o quadro avance para uma fase em que as alternativas conservadoras já não funcionem.
O envelhecimento ativo começa antes da primeira dor
A população brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado, e o sistema musculoesquelético é uma das primeiras estruturas a sinalizar essa mudança demográfica nos consultórios.
Mais do que nunca, manter a mobilidade ativa depende de decisões tomadas décadas antes de qualquer sintoma. Isso vale para a alimentação, para o controle do peso, para a prática regular de exercícios e, sim, para escolhas aparentemente banais como o tipo de sapato usado no dia a dia.
A artrose de joelho, especialmente em mulheres, é um exemplo claro de doença em que pequenos acúmulos ao longo da vida definem o desfecho da terceira idade.
Reconhecer o problema cedo, ajustar a rotina e buscar acompanhamento especializado quando a primeira dor aparece é o que separa um envelhecimento com autonomia de uma trajetória marcada por limitações progressivas.
A escolha de um calçado, vista isoladamente, parece um detalhe. Repetida por trinta anos, pode ser a diferença entre subir a escada da casa aos 70 anos sem pensar duas vezes e precisar parar para descansar antes do quinto degrau.
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