Fratura vertebral silenciosa em idosos: a dor nas costas que esconde uma osteoporose já instalada

 


A dona Marlene, moradora do Recôncavo Baiano, achou que tinha apenas torcido a coluna ao se abaixar para pegar uma panela na cozinha. A dor passou de incômodo a algo insuportável em três dias.

Foram quase dois meses de analgésico, repouso e fisioterapia até alguém pedir uma ressonância. O exame mostrou uma fratura por compressão na vértebra lombar, causada por osteoporose que ninguém havia diagnosticado.

A história se repete em consultórios do interior da Bahia com uma frequência que preocupa os ortopedistas que tratam coluna. Fraturas vertebrais por compressão são, na maioria das vezes, o primeiro sinal de uma osteoporose já em estágio avançado. Quando a dor aparece, o osso já está enfraquecido há anos.

Por que o diagnóstico chega tão tarde

A osteoporose costuma ser silenciosa até causar a primeira fratura. Dados do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, do Ministério da Saúde, mostram que a prevalência de fraturas vertebrais sintomáticas ou não sobe de 20% entre mulheres de 50 a 59 anos para 81,8% entre as que têm 80 a 89 anos. O número impressiona porque muitas dessas fraturas nunca foram identificadas em vida.

A confusão começa na origem da dor. Um episódio agudo nas costas em alguém de 70 anos é tratado, com frequência, como lombalgia comum. O paciente recebe medicação, descansa, melhora um pouco e segue convivendo com a limitação.

A vértebra, porém, continua deformada. Outras podem fraturar em sequência. Em muitos casos, o diagnóstico só aparece quando a postura do paciente já mudou de forma visível, com a chamada cifose dorsal acentuada.

"A diferença entre uma dor lombar comum e uma fratura vertebral por compressão exige avaliação especializada. Ressonância magnética, densitometria óssea e exame clínico bem feito conseguem separar os quadros. A demora em chegar a esses exames é o que transforma um problema tratável em uma sequência de complicações", afirma Dr. Aurélio Arantes, ortopedista especialista da coluna na capital goiana.

O peso da osteoporose no Brasil

A osteoporose é uma doença multifatorial que reduz a densidade mineral óssea e aumenta o risco de fraturas. Atinge principalmente idosos e tem maior prevalência entre mulheres no período pós-menopausa.

Estudo epidemiológico realizado no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia em pacientes do sexo masculino com mais de 50 anos identificou prevalência global de 19,5%, o que mostra que o problema não se restringe ao público feminino.

O BRAZOS (The Brazilian Osteoporosis Study), pesquisa de base populacional com 2.420 brasileiros maiores de 40 anos das cinco regiões do país, identificou que o número de quedas no último ano está diretamente associado ao risco de fratura por baixo impacto.

Em mulheres, a ocorrência foi maior em regiões metropolitanas do que no interior dos estados, mas o estudo aponta que a diferença pode estar mais ligada ao acesso ao diagnóstico do que à ocorrência real das fraturas.

Levantamentos recentes indicam que as fraturas de quadril, uma das complicações mais graves da osteoporose, têm projeção de triplicar até 2050 no Brasil. A mortalidade no primeiro ano após uma fratura de fêmur pode chegar a 30%.

Mesmo diante desse cenário, a taxa de diagnóstico precoce permanece baixa, e ferramentas de rastreio como a densitometria óssea e o cálculo de risco FRAX continuam subutilizadas, principalmente fora dos grandes centros.

Quando a fratura aparece

A fratura vertebral por compressão acontece quando o corpo da vértebra, enfraquecido pela osteoporose, cede sob a carga do próprio peso ou diante de um esforço pequeno. Tossir com força, levantar uma sacola de feira, esticar o braço para alcançar algo em uma prateleira. Movimentos triviais bastam para provocar a fratura.

O sintoma principal é a dor súbita, intensa e localizada na coluna, geralmente na região torácica baixa ou lombar alta. A dor piora com qualquer movimento e melhora pouco com o repouso.

A pessoa não consegue ficar de pé por muito tempo, evita virar na cama e passa a sentir dificuldade até para respirar fundo. Em alguns casos, a fratura cursa com poucos sintomas e só é descoberta em uma radiografia feita por outro motivo.

O problema é que cada fratura nova aumenta a carga sobre as vértebras vizinhas e eleva o risco de novas fraturas em cascata. Sem tratamento adequado, a coluna perde altura, a postura se altera de forma permanente e a qualidade de vida despenca.

O procedimento que mudou o tratamento dessas fraturas

Durante décadas, o tratamento das fraturas vertebrais por compressão se limitava a repouso prolongado, uso de colete e medicação analgésica. Pacientes idosos passavam semanas ou meses acamados, com todas as complicações associadas, da perda de massa muscular ao risco de trombose. Para muitos, o tratamento conservador simplesmente não resolvia.

A virada técnica veio com a injeção percutânea de cimento ósseo dentro do corpo vertebral fraturado. O procedimento, chamado de vertebroplastia, foi descrito pela primeira vez na França no início dos anos 1980 e ganhou tração internacional na década seguinte. No Brasil, foi adotado em centros de referência a partir dos anos 2000.

Uma das séries clínicas mais citadas sobre o tema no país foi publicada na Revista Brasileira de Ortopedia a partir da experiência do Hospital Português da Bahia, em Salvador.

O estudo acompanhou 25 pacientes com fraturas por compressão dos corpos vertebrais, com idades entre 65 e 88 anos, submetidos ao procedimento entre 2003 e 2006. Os resultados mostraram alívio significativo da dor e melhora da qualidade das atividades de vida diária.

Casos como esse mostram que a vertebroplastia percutânea é realizada por especialistas em coluna treinados em técnica minimamente invasiva, com resultados consistentes na maioria dos pacientes selecionados.

Outro estudo brasileiro, publicado em periódico da área de neurologia, analisou 18 vértebras de 11 pacientes submetidos ao mesmo procedimento e identificou melhora acentuada da dor em 90,9% dos casos, com retorno às atividades habituais em 77,8% até o primeiro mês de pós-operatório.

Como o procedimento é feito

A vertebroplastia percutânea consiste na injeção de cimento ósseo, o polimetilmetacrilato, diretamente no corpo vertebral fraturado. A injeção é feita por uma agulha especial inserida pela pele, sem corte cirúrgico, com orientação de fluoroscopia em tempo real para garantir a precisão.

O paciente fica posicionado de bruços, sob anestesia local com sedação ou anestesia geral leve. O procedimento dura, em média, 30 a 60 minutos por vértebra tratada. O cimento solidifica em poucos minutos dentro da vértebra, estabilizando o osso fraturado e reduzindo a dor pela diminuição dos micromovimentos no foco da lesão.

A maioria dos pacientes recebe alta hospitalar no mesmo dia ou no dia seguinte. O retorno às atividades leves costuma ocorrer em poucos dias, e o retorno completo às rotinas habituais em poucas semanas, conforme orientação médica.

Conforme reforça um ortopedista especialista em coluna pela Unimed, o tempo entre o diagnóstico da fratura e a indicação cirúrgica é decisivo, porque a vertebroplastia funciona melhor em fraturas agudas, identificadas precocemente, com edema ósseo ainda presente na ressonância magnética.

A técnica é indicada para fraturas vertebrais por osteoporose que não respondem ao tratamento conservador, fraturas patológicas causadas por tumores ou metástases, hemangiomas vertebrais agressivos e mielomas múltiplos com acometimento da coluna.

O procedimento não é indicado para fraturas estáveis sem dor incapacitante nem para casos em que a fratura está consolidada há muito tempo, sem edema ósseo.

Quem deve avaliar

A decisão entre tratamento conservador, vertebroplastia, cifoplastia ou outras opções cirúrgicas exige avaliação por profissional com experiência específica em cirurgia de coluna. A escolha errada do procedimento, ou o atraso na indicação, compromete o resultado.

Na visão dos melhores ortopedistas em Goiânia, três pontos costumam ser determinantes no acompanhamento de pacientes com fraturas vertebrais por osteoporose. O primeiro é a confirmação precoce do diagnóstico, com exame de imagem específico.

O segundo é o tratamento da osteoporose subjacente, já que a fratura é um sintoma de uma doença sistêmica que continua agindo sobre os outros ossos. O terceiro é a indicação correta do procedimento, ajustada ao tempo de evolução da fratura e às condições clínicas do paciente.

A avaliação envolve história clínica completa, exames laboratoriais, densitometria óssea, radiografia e ressonância magnética da coluna.

A densitometria mostra o grau de osteoporose. A radiografia confirma a fratura e mostra a deformidade. A ressonância identifica se a fratura é recente, condição que define a indicação da vertebroplastia.

Prevenção começa antes da fratura

Para idosos baianos, especialmente os do interior, o caminho mais eficaz para evitar a primeira fratura vertebral passa por três frentes simples.

A primeira é a densitometria óssea preventiva a partir dos 50 anos para mulheres na pós-menopausa e dos 65 anos para homens, ou antes desse limite quando há fatores de risco como tabagismo, histórico familiar, baixo peso, uso prolongado de corticoide e doenças inflamatórias crônicas.

A segunda é a suplementação adequada de cálcio e vitamina D, sempre com orientação médica, combinada à exposição moderada ao sol, que no clima baiano costuma ser favorável durante boa parte do ano.

A terceira é a prática regular de exercícios que estimulem a contração muscular contra a resistência, como caminhada, musculação leve e exercícios de equilíbrio. Movimento é remédio para o osso.

A queda em casa continua sendo a principal causa de fratura osteoporótica em idosos. Tapetes soltos, banheiros sem barras de apoio, iluminação fraca em corredores e calçados inadequados respondem por boa parte das ocorrências. Adaptar a casa é uma intervenção barata e que reduz drasticamente o risco.

O que muda quando o tratamento chega na hora certa


A diferença entre um paciente que recebe diagnóstico em duas semanas e outro que demora seis meses não está só na dor evitada. Está na capacidade de continuar caminhando, dirigindo, cuidando da casa, brincando com os netos.

A osteoporose não escolhe idade nem cidade, mas o desfecho de uma fratura vertebral depende fortemente do acesso ao diagnóstico e do tempo até o tratamento adequado.

No interior da Bahia, onde a distância até centros de referência ainda é uma barreira concreta, a saída tem sido a busca por profissionais experientes em capitais próximas.

Goiânia se consolidou nas últimas duas décadas como polo médico para pacientes do Centro-Oeste e do Nordeste, com cirurgiões de coluna que realizam vertebroplastia e cifoplastia em volume suficiente para manter expertise constante. Para muitas famílias do Recôncavo e do sertão baiano, esse fluxo já é parte da rotina de cuidado com os mais velhos.

A dor nas costas que não passa não é parte natural do envelhecimento. Quando dura mais que algumas semanas, quando piora com o movimento, quando muda a postura ou a marcha, exige investigação. A fratura vertebral por compressão tem tratamento eficaz, rápido e com baixo risco, desde que identificada a tempo.

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