Dor no quadril ao caminhar: o sinal que muitos brasileiros confundem com cansaço

 


Maria, 58 anos, comerciante em Salvador, levou quase dois anos para descobrir que a dor que sentia ao caminhar até a feira não era cansaço. Era artrose no quadril.

No começo, o desconforto aparecia depois de subir uma ladeira ou ficar muito tempo em pé atrás do balcão. Sumia com o repouso. Voltava no dia seguinte.

Ela passou a evitar caminhadas longas, trocou os sapatos, comprou palmilhas, tomou anti-inflamatório sem prescrição. Quando finalmente procurou um especialista, a cartilagem já estava em estágio avançado.

Histórias como a de Maria se repetem em consultórios de ortopedia em todo o país. O quadril é a articulação que sustenta o peso do corpo durante a marcha, e quando algo não vai bem nela, o sintoma inicial costuma ser tão discreto que o paciente atribui ao envelhecimento, ao excesso de trabalho ou à rotina pesada.

A consequência prática desse atraso é direta: quanto mais tempo a articulação trabalha em condição inadequada, menor a chance de recuperar a função sem precisar de cirurgia de grande porte.

Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados pela Sociedade Brasileira do Quadril, cerca de 10 milhões de brasileiros convivem com algum grau de artrose no quadril, conhecida tecnicamente como coxartrose. A patologia está entre as articulações mais atingidas pela artrose no país, ao lado de joelhos e dedos.

Como a dor no quadril aparece e por que é confundida com cansaço

A artrose do quadril não chega de uma hora para outra. Ela começa de forma silenciosa, com um leve desconforto na virilha, na nádega ou na parte da frente da coxa, que melhora com o descanso.

"Como o sintoma inicial é intermitente e some quando o paciente para, é comum que ele interprete a dor como esforço excessivo, mau jeito ao dormir ou simplesmente idade chegando", conta Dr. Tiago Bernardes, médico de quadril que atende em Goiânia.

Na sequência, os sintomas se intensificam. A dor passa a ocorrer mesmo em repouso. A rigidez articular fica mais evidente pela manhã. Tarefas que antes pareciam banais começam a incomodar: vestir uma meia, cortar as unhas dos pés, calçar sapatos, dirigir um trecho mais longo, sentar e levantar de cadeiras baixas.

Muitos pacientes só percebem a gravidade quando passam a mancar de forma persistente ou quando uma das pernas começa a parecer mais curta que a outra.

O ortopedista de quadril costuma identificar três sinais clínicos que diferenciam a dor articular de um cansaço comum. O primeiro é a localização: a dor da artrose do quadril costuma se manifestar na virilha, com irradiação para a face anterior da coxa, e não nas costas ou na panturrilha.

O segundo é a perda de amplitude de movimento, especialmente na rotação interna da articulação. O terceiro é a evolução progressiva, com sintomas que pioram em semanas e meses, não apenas em dias ruins.

Os números que ajudam a dimensionar o problema

A osteoartrite, doença que inclui a artrose do quadril, é uma das principais causas globais de incapacidade musculoesquelética. Em 2020, cerca de 595 milhões de pessoas no mundo conviviam com osteoartrite em alguma articulação, segundo levantamento do Global Burden of Disease publicado na revista The Lancet Rheumatology.

A projeção é que esse número se aproxime de 1 bilhão até 2050. Entre todas as articulações, o quadril é justamente a que registra o maior crescimento percentual anual de novos casos.

A Organização Mundial da Saúde estima que, a partir dos 60 anos, 10% dos homens e 18% das mulheres convivem com osteoartrite sintomática. Estudos epidemiológicos brasileiros indicam que a coxartrose atinge entre 3% e 6% da população adulta, podendo chegar a 10% acima dos 60 anos e a 10 a 20% após os 70.

Esses números importam ainda mais quando se olha para a estrutura etária do país. Conforme as projeções do IBGE, a proporção de idosos na população brasileira praticamente dobrou nas últimas duas décadas, passando de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023. Em 2070, cerca de 37,8% dos habitantes do Brasil terão 60 anos ou mais.

Na Bahia, o quadro é particularmente expressivo. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado, a Bahia já é a unidade da federação com maior número de centenários e concentra mais de 1,5 milhão de pessoas com 60 anos ou mais. O Censo 2022 mostrou que a população idosa do estado cresceu 50% em relação ao levantamento anterior, de 2010.

Estudos da Sudene apontam que a Bahia tem um dos índices de envelhecimento mais altos do Nordeste e concentra mais de um quarto da população idosa da região. Em municípios da Chapada Diamantina, como Jussiape, quase 27% dos moradores já têm acima de 65 anos.

Esse cenário aumenta de forma direta a demanda por atenção ortopédica especializada. Mais idosos significam mais articulações em desgaste, mais quedas, mais fraturas de quadril e mais cirurgias eletivas de prótese.

Quando a dor exige avaliação especializada

A regra prática mais útil para o paciente é simples. Dor que melhora com repouso em 24 a 48 horas e não retorna pode ser tratada como sobrecarga muscular. Dor que aparece de forma recorrente ao caminhar, ao subir escadas ou ao girar o quadril, que vai e volta por mais de duas semanas, ou que começa a limitar atividades do dia a dia, precisa ser investigada por um médico.

Outros sinais que indicam a necessidade de buscar avaliação são: dor noturna que atrapalha o sono, rigidez ao levantar da cama que demora a passar, sensação de travamento ou cliques na articulação, dificuldade para vestir roupas ou amarrar calçados e mudança no padrão da marcha.

Quando esses sintomas aparecem associados, vale procurar ortopedistas especialistas em quadril na sua cidade, com formação específica em cirurgia do quadril e experiência em técnicas modernas de avaliação e tratamento.

O diagnóstico começa com a história clínica e o exame físico. O médico avalia o alinhamento das pernas, a amplitude dos movimentos do quadril, a presença de dor à palpação e os testes específicos para identificar conflito femoroacetabular ou lesões do lábio acetabular.

A confirmação se dá com exames de imagem, principalmente radiografia da pelve em incidências adequadas e, quando necessário, tomografia computadorizada ou ressonância magnética.

O ponto importante aqui é que o quadril dói por muitas razões diferentes. Pode ser artrose, mas também pode ser bursite trocantérica, tendinopatia glútea, conflito femoroacetabular em pacientes jovens, lesão do lábio acetabular, osteonecrose da cabeça femoral, sequela de fratura ou ainda dor referida da coluna lombar.

Cada uma dessas condições tem tratamento diferente, e o diagnóstico errado leva a anos de fisioterapia ineficaz.

Por que o atraso no diagnóstico muda o prognóstico

Quando a artrose do quadril é identificada em estágio inicial, há um leque amplo de opções conservadoras. Controle do peso corporal, exercícios de fortalecimento de glúteos e core, ajuste de calçados, fisioterapia direcionada e, em casos selecionados, infiltrações guiadas por imagem podem manter o paciente funcional por anos.

Em quadros leves e moderados, terapias como o plasma rico em plaquetas vêm sendo estudadas como opção adicional, sempre dentro de um plano de reabilitação.

O problema é que essas estratégias funcionam melhor enquanto a cartilagem ainda tem espessura. Quando o paciente chega ao consultório com perda significativa do espaço articular, deformidades importantes ou dor em repouso, o tratamento conservador perde eficácia e a cirurgia de prótese passa a ser a opção mais consistente para devolver qualidade de vida.

A artroplastia total do quadril é hoje um procedimento bem estabelecido, com excelentes resultados funcionais na maioria dos casos. As próteses modernas podem durar mais de 20 anos, oferecem alívio significativo da dor e devolvem mobilidade.

Técnicas minimamente invasivas aceleram a recuperação e reduzem o tempo de internação. Ainda assim, a cirurgia tem riscos, exige reabilitação cuidadosa e impõe restrições permanentes em movimentos de alto impacto.

Quanto mais tarde o paciente chega, maior a perda muscular acumulada, mais difícil a reabilitação pós-operatória e maior o comprometimento de articulações vizinhas, como a coluna lombar e o joelho, que passam anos compensando a marcha alterada.

Como o cuidado integrado faz diferença

A ortopedia moderna trabalha com a ideia de cuidado contínuo. Não basta operar bem; é preciso entender o paciente antes, durante e depois da intervenção. Avaliação clínica completa, exames de imagem adequados, planejamento cirúrgico individualizado, anestesia segura, fisioterapia precoce, controle de comorbidades como diabetes e hipertensão, tudo isso compõe o resultado final.

Em centros que reúnem várias subespecialidades sob a mesma estrutura, o paciente encontra ortopedistas de quadril, joelho, coluna e ombro trabalhando em conjunto, com fisioterapeutas e equipe de imagem integrados ao processo. Esse modelo facilita a identificação de causas combinadas, comum em pacientes com mais de 60 anos, e reduz o tempo entre a primeira consulta e o início do tratamento adequado.

Para casos mais complexos, o tratamento em clínicas especialistas em ortopedia que oferecem essa estrutura integrada costuma ser o caminho mais eficiente, porque concentra avaliação, exames e plano terapêutico em um mesmo ambiente clínico.

Outro ponto que muda o resultado é o volume cirúrgico do especialista. Estudos internacionais mostram que cirurgiões com maior número de artroplastias realizadas por ano apresentam menores índices de complicação.

Por isso, ao pesquisar um profissional para uma eventual cirurgia, vale verificar o registro no Conselho Regional de Medicina, o Registro de Qualificação de Especialista (RQE), a filiação a sociedades como a SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e a SBQ (Sociedade Brasileira do Quadril), além da experiência prática em hospitais de referência.

O que o paciente pode fazer agora

Para ortopedistas do COE, centro de atendimento ortopédico em Goiânia, a primeira recomendação prática é não normalizar a dor. Cansaço passa. Desconforto após uma caminhada longa passa. Dor recorrente, em local específico, que muda a forma de andar e limita o cotidiano, não é cansaço.

A segunda é olhar para os fatores de risco modificáveis. Obesidade, sedentarismo prolongado, sobrecarga ocupacional e prática esportiva sem orientação técnica adequada estão entre os principais aceleradores do desgaste articular. Manter o peso dentro da faixa saudável, fortalecer a musculatura ao redor do quadril e variar o tipo de esforço físico são medidas que protegem a articulação a longo prazo.

A terceira é não esperar. Uma consulta com ortopedista quando a dor ainda é leve costuma resultar em um plano simples, com fisioterapia e ajustes de rotina. A mesma consulta dois anos depois, com o desgaste já instalado, pode levar diretamente à indicação cirúrgica.

Em um país que envelhece em ritmo acelerado, e em estados como a Bahia, onde a transição demográfica é particularmente visível, o cuidado precoce com o quadril deixa de ser uma escolha individual e passa a ser uma questão de manter autonomia funcional pelo maior tempo possível. Caminhar sem dor não é luxo. É indicador de saúde.

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