Dor no ombro, na mão ou no punho acende alerta entre trabalhadores brasileiros

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 A cena se repete em cidades grandes e em municípios do interior. Um trabalhador rural percebe que a mão direita amanhece dormente. Um eletricista nota que o ombro perdeu força para erguer fios acima da cabeça. Uma costureira sente formigamento nos dedos durante a madrugada e atribui ao cansaço.

Quase sempre, a primeira reação é a mesma: esperar. Por semanas, meses, às vezes anos. Quando a procura por um médico finalmente acontece, o quadro já não responde a fisioterapia ou medicação simples, e o tratamento que poderia ter sido conservador entrou na faixa cirúrgica.

Esse atraso tem nome técnico e custo social. As Lesões por Esforços Repetitivos e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho, conhecidos pela sigla LER/DORT, estão entre as principais causas de afastamento do INSS no Brasil.

Entre 2007 e 2021, foram registrados 102.986 diagnósticos dessas doenças segundo dados do Ministério da Saúde, e somente em 2023 mais de 10 mil trabalhadores precisaram interromper suas funções por essas condições.

A síndrome do túnel do carpo, uma das mais frequentes nesse grupo, afastou cerca de 24 mil trabalhadores em 2023, conforme o Ministério da Previdência Social.

Os dados mais recentes do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, coordenado pelo Ministério Público do Trabalho e pela Organização Internacional do Trabalho, mostram que fraturas de punho e mão lideram os afastamentos acidentários no país, com mais de 1 milhão de ocorrências acumuladas e 84 mil registros somente em 2024.

O recorte importa porque o membro superior é a parte do corpo que mais se machuca no trabalho brasileiro, e também a que mais é negligenciada pelo próprio paciente até que a dor se torne incapacitante.

A Bahia e o peso do trabalho manual

Em estados como a Bahia, onde a cadeia produtiva vai do plantio de cacau no Sul à produção de mandioca, fumo e cana no Recôncavo, passando pela indústria de calçados em Itabuna e pelo comércio popular em Feira de Santana e Salvador, as atividades que exigem repetição de movimentos e carga sobre mãos, punhos, cotovelos e ombros são parte do cotidiano de centenas de milhares de pessoas.

O trabalhador rural baiano que passa o dia com a enxada, o que ergue sacos de cacau seco, o que opera máquinas de cozimento de farinha, o eletricista que trabalha com braços elevados, a auxiliar de costura que opera teclados industriais por oito horas seguidas: todos estão expostos a sobrecarga muscular contínua que termina, mais cedo ou mais tarde, no consultório de um ortopedista.

O problema é que a maioria não chega ao consultório a tempo. Pesquisa publicada na Revista Brasileira de Ortopedia mostrou que mais da metade dos pacientes com síndrome do túnel do carpo apresenta pelo menos uma comorbidade associada no momento do diagnóstico, sinal de que o quadro evoluiu por muito tempo sem cuidado adequado.

Em estudo eletrofisiológico de 668 pacientes referência na literatura brasileira, 35,5% dos casos tinham mais de dois anos de sintomas antes da avaliação especializada, conforme dados publicados pela SciELO Brasil.

A consequência clínica desse atraso é direta. Quanto mais tempo o nervo mediano permanece comprimido dentro do túnel do carpo, maior o risco de atrofia da musculatura tenar, perda de força de preensão e sequelas permanentes.

O mesmo princípio vale para as tendinites de ombro, para a síndrome do impacto, para as lesões do manguito rotador e para condições menos conhecidas, mas igualmente incapacitantes, como a escápula alada.

Por que a dor da mão não é "só cansaço"

A mão humana é uma das estruturas mais complexas do corpo. Vinte e sete ossos, vinte e nove articulações, mais de trinta músculos e uma rede densa de nervos e tendões trabalham juntos para que ações simples, como segurar uma caneca ou apertar um parafuso, aconteçam sem esforço consciente. Quando uma dessas peças falha, o efeito em cascata costuma ser ignorado nas primeiras semanas, porque a dor é tolerável e o trabalho não para.

De acordo com um ortopedista especialista em mãos da Unimed atuante em Goiânia, Dr. Henrique Bufaiçal, com formação na UFG e fellowship no Institut Européen de la Main, na França e em Luxemburgo, o erro mais comum dos pacientes é normalizar a dormência noturna.

"A pessoa acorda sacudindo a mão de madrugada e acha que dormiu em má posição. Faz isso por meses. Quando procura ajuda, o nervo já está sofrendo lesão estrutural, e o tratamento conservador perde eficácia", costuma orientar o especialista, que é Chefe do Serviço de Mão do CRER e membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão.

Sintomas que devem disparar o sinal de alerta incluem dormência ou formigamento nos dedos polegar, indicador, médio e parte do anular, especialmente durante a noite; dor no punho que irradia para o antebraço; fraqueza ao segurar objetos pequenos como chave ou agulha; e perda de destreza para tarefas finas.

Quando esses sinais aparecem juntos por mais de duas semanas, a avaliação com cirurgião de mão deixa de ser opcional.

O ombro também adoece em silêncio

Se a mão sofre por repetição, o ombro adoece por carga e por desequilíbrio. A articulação do ombro é a mais móvel do corpo humano, e essa mobilidade tem um preço: a estabilidade depende de uma orquestra de músculos pequenos, conhecidos como manguito rotador, que se fadigam com facilidade.

Trabalhadores que erguem peso acima da cabeça, atletas amadores, pintores, eletricistas e mães que carregam crianças no colo o dia inteiro estão entre os mais expostos.

Uma das condições menos diagnosticadas dessa região é a escápula alada, que ocorre quando a omoplata se projeta de forma anormal para fora da parede torácica durante o movimento dos braços.

Estudo publicado no Journal of Shoulder and Elbow Surgery aponta que a condição afeta aproximadamente uma em cada 7.500 pessoas, e dados do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia indicam crescimento de 23% nos diagnósticos entre 2020 e 2024.

O número parece pequeno até considerar que muitos casos nunca chegam a ser identificados, porque o paciente é tratado apenas pela dor superficial, sem investigação da causa.

A escápula alada pode surgir após traumas, cirurgias na região axilar, infecções virais ou simplesmente por desequilíbrio muscular crônico. Os sintomas costumam ser dor que piora ao final do dia, sensação de queimação na região cervical e dificuldade para elevar o braço acima da linha dos olhos.

Em casos mais avançados, o paciente percebe a própria omoplata "saltando" das costas ao empurrar contra uma parede. Tratar tarde aumenta o risco de necessidade cirúrgica e de sequelas funcionais.

Por isso, ao primeiro sinal persistente, vale procurar um especialista em escápula que faça o teste clínico específico e solicite eletroneuromiografia quando necessário, em vez de aceitar o diagnóstico genérico de "tendinite".

O que separa o caso reversível do caso cirúrgico

A pergunta que pacientes fazem com mais frequência é prática: como saber a hora certa de procurar especialista? A resposta, na literatura ortopédica, é razoavelmente simples e nem sempre é seguida.

Qualquer dor articular em membro superior que persista por mais de duas a três semanas merece avaliação. Qualquer dormência ou perda de força em qualquer parte da mão é critério para consulta imediata. Qualquer limitação progressiva de movimento, mesmo sem dor intensa, é sinal de alerta.

Há também uma diferença prática importante entre buscar um ortopedista geral e buscar um subespecialista. O ortopedista generalista atende uma gama ampla de queixas e faz triagem qualificada, mas as patologias de mão, ombro, joelho e coluna têm subespecialidades reconhecidas pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia justamente porque exigem treinamento focado.

Em centros urbanos como Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Goiânia, São Paulo e Belo Horizonte, o paciente já encontra essa estrutura. Em municípios menores, vale o esforço de deslocamento até a capital mais próxima quando o caso exige intervenção cirúrgica de precisão.

Para problemas de ombro, em particular, a recomendação é avaliar o profissional pela formação específica em cirurgia de ombro e cotovelo, pelo vínculo com hospitais de referência e pela experiência em técnicas minimamente invasivas.

Pacientes que pesquisam o currículo do médico antes da consulta têm resultados melhores em estudos de adesão ao tratamento, segundo levantamentos da Associação Médica Brasileira.

Profissionais reconhecidos costumam manter perfis ativos em redes sociais com produção de conteúdo educativo, como faz o especialista em ombro Dr. Thiago Caixeta, que atua em Goiânia e é preceptor do Serviço de Treinamento Avançado em Cirurgia do Ombro e Cotovelo do Hospital das Clínicas da UFG, com registro CRM/GO 1329 e RQE 8070.

O custo de adiar

O Observatório SmartLab de Trabalho Decente registrou, entre 2012 e 2024, mais de meio bilhão de dias de trabalho e de vida saudável perdidos por afastamentos relacionados a doenças e acidentes ocupacionais no Brasil.

Para a Organização Internacional do Trabalho, esse tipo de afastamento representa perda média anual de 4% do PIB mundial. No nível individual, o cálculo é ainda mais cruel. O trabalhador autônomo que perde a função da mão dominante perde também a renda.

O agricultor familiar baiano que não consegue mais erguer o braço para colher cacau perde a safra. A diarista que desenvolve túnel do carpo e adia a cirurgia por anos termina sem poder torcer pano de chão, e sai do mercado de trabalho cedo demais.

A boa notícia é que a maioria dos quadros, quando identificada nos primeiros meses, responde bem a tratamento conservador. Imobilizações temporárias, fisioterapia direcionada, infiltrações e correção de gestos no trabalho resolvem entre 70% e 85% dos casos de patologias de membro superior, conforme dados consolidados pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.

A cirurgia entra em cena quando a janela do tratamento conservador se fechou, e essa janela costuma se fechar por um motivo evitável: o paciente esperou demais.

O que fazer agora

A orientação prática que ortopedistas repetem em consultórios de norte a sul do país é a mesma. Dor articular que dura mais de três semanas precisa de avaliação. Dormência ou fraqueza em qualquer parte do membro superior precisa de avaliação.

Limitação de movimento que aparece e não passa em sete dias precisa de avaliação. O sistema público oferece atendimento ortopédico em todos os estados, e a rede privada brasileira tem profissionais qualificados em quase todas as capitais e em muitas cidades médias.

Para o trabalhador baiano que sente o braço pesar no final do dia, para a costureira que acorda com a mão dormente, para o pedreiro que perdeu força de preensão e está com medo de soltar a colher, a decisão certa é a mais simples: marcar a consulta.

A medicina dispõe hoje de recursos diagnósticos e terapêuticos que, há vinte anos, não existiam. O que falta, na maioria dos casos, é o tempo entre o primeiro sintoma e a primeira consulta.

Quando esse tempo é curto, o tratamento é curto. Quando esse tempo é longo, o tratamento também é, e às vezes não há tratamento que recupere por completo o que foi perdido.

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