| Reprodução DINO |
Médicos já adaptam tratamentos ao perfil genético, histórico clínico e hábitos de cada paciente por meio da inteligência artificial (IA). A Precedence Research estima que o setor de IA aplicada à saúde movimente US$613 bilhões até 2034, partindo dos atuais US$36 bilhões, com taxa de crescimento anual de 36,83%. A América do Norte mantém liderança no mercado global, respondendo por 45% do faturamento, enquanto os Estados Unidos devem atingir US$195 bilhões até 2034.
As plataformas de IA combinam informações genômicas, transcriptômicas, proteômicas e de imagem para tentar identificar biomarcadores, prever resposta a medicamentos e detectar doenças anos antes dos primeiros sintomas. Outro mercado que se beneficia desses avanços, o de medicina de precisão, deve atingir USD 470,5 bilhões até 2034, crescendo 16,5% ao ano, segundo o StartUs Insights.
Brasil lidera startups de saúde na América Latina
O mercado latino-americano de startups de saúde cresceu 37,6% entre 2023 e 2024, atingindo receitas de US$253,7 bilhões, com o Brasil concentrando 64,8% dessas empresas na região, conforme relatório da Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS). Das cinco maiores healthtechs latino-americanas, quatro são brasileiras.
No país, a Rede D’Or já aplica IA no rastreamento de câncer de mama, próstata, tireoide e cólon em 79 hospitais distribuídos por 13 estados e o Distrito Federal. Em agosto passado, cardiologistas na cidade do Rio de Janeiro participaram do Congresso Internacional de Cardiologia, com programação dedicada à inteligência artificial e mídias sociais na nova era da cardiologia, com programação que atraiu médicos do coração do mundo inteiro.
Dados da pesquisa TIC Saúde 2024 revelaram que 17% dos médicos brasileiros utilizam IA em sua prática profissional, sendo 14% em estabelecimentos públicos e 20% em privados. Entre os enfermeiros, a utilização é de 16%, sendo 11% no setor público e 26% no privado.
A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) divulgou estudo mostrando que 62,5% das instituições privadas já utilizam IA em diversas aplicações, incluindo chatbots para atendimento, segurança da informação, apoio à decisão clínica e análise de imagens médicas. Desses, 51% relataram resultados práticos positivos com o uso da tecnologia.
Aprovações de equipamentos inteligentes cresceram 37 vezes desde 2015
A agência reguladora norte-americana Food and Drug Administration (FDA) autorizou aproximadamente 1.016 dispositivos médicos com inteligência artificial até agosto de 2024. Foram 221 aprovações registradas apenas naquele ano, contra seis em 2015, um crescimento de 37 vezes em menos de uma década.
A radiologia concentra entre 76% e 84% desses dispositivos, seguida pela cardiologia, com 10%, conforme informações do Goodwin Law. Dispositivos “vestíveis” (wearables), como Apple Watch e Fitbit, já detectam arritmias cardíacas e apneia do sono, enviando alertas que podem salvar vidas.
Especialistas utilizam esses dados para monitoramento remoto de pacientes, identificando problemas antes de complicações graves. A Accenture divulgou pesquisa mostrando que 87% dos consumidores e 94% dos médicos acreditam que os wearables fortalecem o engajamento do paciente com a própria saúde.
Um estudo publicado em 2025 no periódico científico JAMA Network Open revelou limitações na validação pré-mercado: apenas 55,9% dos dispositivos aprovados pela FDA apresentaram estudos clínicos documentados, enquanto 24,1% não contavam explicitamente com esse tipo de comprovação.
Além das consultas clínicas tradicionais, feitas presencialmente, a telemedicina também está incorporando algoritmos que cruzam sintomas, histórico e estilo de vida para sugerir condutas preliminares. Alguns sistemas vão além, analisando até mesmo padrão de voz e expressões faciais para, possivelmente, auxiliar em diagnósticos comportamentais. Orientações sobre cuidados necessários após a colonoscopia e demais procedimentos que exigem atenção dos pacientes nos dias seguintes exemplificam esse tipo de suporte automatizado, caracterizando o que é chamado de “Telemedicina 4.0”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou em janeiro de 2024 diretrizes sobre ética e governança de IA em saúde, alertando para vieses algorítmicos, questões de privacidade relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ao padrão norte-americano HIPAA, e o problema da “caixa-preta” – sistemas cujas decisões não podem ser facilmente explicadas.
Estudos mostram melhora de até 45% em doenças crônicas
Pesquisas divulgadas em periódicos como New England Journal of Medicine (NEJM) e American Academy of Physician Assistants (AAPA) em 2024, mostraram que a inteligência artificial pode melhorar em até 45% os resultados clínicos no tratamento de doenças crônicas como diabetes e cardiopatias. A taxa de sucesso na descoberta de fármacos com uso de IA atinge entre 80% e 90%, enquanto métodos tradicionais alcançam de 40% a 65%, segundo informações da Signity Solutions.
Sistemas de IA multimodal, que integram diferentes tipos de dados médicos, superam modelos que analisam apenas uma fonte de informação em 6,2 pontos percentuais na métrica AUC (área sob a curva), conforme estudo publicado no Medical Image Analysis em 2025.
Personalização digital se torna expectativa de 71% dos consumidores
A personalização em escala real permite que algoritmos ajustem campanhas e atendimentos com base em dados preditivos, contexto de saúde do paciente e padrões de comportamento digital. Chatbots com “personalidade” médica evoluíram para incorporar tom de voz ajustado ao perfil da clínica, reconhecimento de perfil e histórico de pacientes, e integração com informações completas do paciente, tornando a comunicação mais humanizada.
Segundo pesquisa da McKinsey, 71% dos consumidores esperam interações personalizadas e 76% se decepcionam quando isso não acontece. A automação inteligente de processos administrativos já é realidade em grande parte do mercado, incluindo gestão hospitalar onde algoritmos preveem demanda por leitos e organizam escalas.
A pesquisa internacional OTRS Spotlight: IT Service Management 2023 mostra que 78% das empresas brasileiras investiram em automação. Do ponto de vista dos gestores, parte avalia que, ao reduzir tarefas manuais como confirmação de consultas, emissão de guias e organização de prontuários, as equipes ficam livres para focar em atividades estratégicas.
Viés em algoritmos e proteção de dados preocupam médicos e pacientes
Modelos treinados com dados predominantemente de populações ocidentais e países de alta renda apresentam desempenho inferior quando aplicados em grupos não-ocidentais ou sub-representados. Em uma tentativa de diminuir esses lapsos em casos oncológicos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e grandes farmacêuticas buscam validação de ferramentas de IA em populações diversas globalmente.
Outro obstáculo crítico é a confiança do paciente na gestão de seus dados sensíveis. A pesquisa Voz do Consumidor, da PwC, revela que 90% dos brasileiros (contra 83% da média global) consideram a proteção de dados pessoais, inclusive médicos, um dos fatores mais importantes para confiar em uma empresa.
A fragmentação na experiência do paciente também pode comprometer a eficácia dos sistemas: o relatório Zendesk CX Trends mostra que 70% das pessoas esperam que qualquer agente tenha acesso ao histórico completo da interação, e 62% acreditam que a experiência deve fluir naturalmente entre ambientes físicos e digitais.
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