Renda fixa digital não é cripto: entenda as diferenças


A popularização de ativos digitais ampliou o vocabulário do investidor brasileiro, mas também trouxe confusões comuns. Uma delas envolve a chamada renda fixa digital, frequentemente associada, de forma imprecisa, às criptomoedas. Apesar de ambas utilizarem tecnologia blockchain, são produtos com naturezas, riscos e estruturas distintas. Entender essas diferenças é fundamental para avaliar oportunidades e tomar decisões mais informadas.


Enquanto as criptomoedas são ativos descentralizados, sem lastro em instrumentos financeiros tradicionais, a renda fixa digital está ligada a dívidas reais de empresas, como debêntures e notas comerciais. Na prática, ela representa a versão tokenizada de investimentos já conhecidos do mercado financeiro.


O que é renda fixa digital e como ela funciona?


A renda fixa digital é estruturada a partir de ativos reais, enquadrados no conceito de Real World Assets (RWA). Esses ativos correspondem a direitos creditórios originados de dívidas corporativas, com regras de remuneração e prazos definidos previamente nos documentos da oferta.


Esses instrumentos costumam ser adquiridos por uma securitizadora, que emite certificados de recebíveis e os transforma em tokens registrados em blockchain. Cada token representa uma fração do ativo original e pode ser adquirido por investidores por meio de ofertas realizadas sob as regras da Resolução CVM nº 88, que disciplina o crowdfunding de investimentos no Brasil.


Apesar de estarem em ambiente digital, os pagamentos seguem a lógica da renda fixa tradicional: o investidor recebe em reais, de acordo com o fluxo de pagamento do ativo que lastreia a operação.


Quem paga os rendimentos e quais são as garantias?


Os rendimentos da renda fixa digital decorrem do pagamento das obrigações assumidas pelas empresas emissoras dos títulos de dívida. Não há garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), nem coobrigação automática da securitizadora ou da plataforma.


Os direitos creditórios ficam alocados em um patrimônio separado e podem contar com garantias fidejussórias, mecanismo pelo qual uma empresa se compromete a responder pelas obrigações de outra, caso haja inadimplência. Ainda assim, é um investimento que exige análise cuidadosa das condições descritas nos documentos da oferta.


No momento da liquidação, os valores são creditados em reais diretamente na conta do investidor na plataforma, sem conversão em criptoativos.


Tokenização não é criptomoeda


A principal diferença entre renda fixa digital e criptomoedas está no lastro. Criptomoedas como bitcoin ou ether não representam dívidas, contratos de crédito ou ativos físicos. Seu valor é definido pelo mercado, com oscilações significativas e sem promessa de rendimento previsível.


Já a tokenização aplicada à renda fixa serve como infraestrutura tecnológica. O blockchain registra contratos inteligentes, controla a quantidade de tokens emitidos e garante rastreabilidade das operações, mas não altera a natureza econômica do investimento, que continua sendo um título de crédito.


Além disso, ao contrário de muitos criptoativos, as ofertas de renda fixa digital realizadas via crowdfunding não contam com mercado secundário, o que limita a liquidez até o vencimento do ativo.


Tecnologia como meio, não como produto


A renda fixa digital não substitui a renda fixa tradicional nem concorre diretamente com criptomoedas. Ela ocupa um espaço próprio, ao combinar instrumentos financeiros conhecidos com uma nova forma de registro e distribuição. 


Ao compreender que o token é apenas a representação digital de um ativo real, o investidor consegue avaliar melhor se esse tipo de produto faz sentido dentro de sua estratégia e perfil de risco.


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